Antes que apague
Um livro palimpsesto
Um relato de histórias familiares muito violentas, de homens violentos e mulheres que sabem de coisas e guardam segredos e da dificuldade de desvelar e revelar essas mesmas histórias.
Um medo das histórias familiares, que aponta para duas direções: medo do passado encoberto e medo também do futuro, sempre encoberto.
A não ser a morte, essa sim uma certeza certa para todos os viventes, disso sabemos e dessa certeza nasce também o imperativo de narrar histórias.
Uma busca: quem tem culpa do quê? Uma inquietação: a narradora é culpada por revelar histórias? Qual foi a primeira violência, aquela inaugural ? A escrita é ela mesma uma violência?
Quem causou o incêndio e depois o outro é outro? Quem acendeu o primeiro fósforo? Mas a narrativa se emaranha e a narradora mesma não sabe, não chega a veredito nenhum, porque são inúmeras as versões, vários os textos atrás dos textos.
A narradora é nada onisciente, busca, coleta e tropeça em pedaços de histórias e procura montar as peças para dar forma à mãe que esvanece. Para dar forma a si mesma.
Mas então, neste caminho estreito do presente, eu fico achando que a escrita é uma vontade de cura, quer dizer, a escrita como uma maneira de afastar a maldição, não afastar, mas desfazer, destecer oráculos negativos e possibilitar a existência de histórias mais livres.
Talvez trazendo as histórias submersas à tona, seu poder de feitiço e maldição se perde e ganha uma outra espécie de força, que é a força que as histórias contadas e narradas têm.
e essa força é sempre uma força generosa.
Então fiquei achando que esse é uma especie de livro proteção, vamos falar os não ditos, vamos narrar segredos não em busca de verdade, nem de soluções para mistérios, nem de atribuições de culpa, mas sim talvez daquele gesto inaugural de contar história como maneira de afastar a morte. E os medos.
Contar história para que outras histórias possam ser contadas e os filhos das filhas não perpetuem as violências, que os machucados não perpetuem machucados.
É uma histórias de investigação de camadas arqueológicas, e não importa o que se deu e o que não se deu, porque o que importa é que é uma história narrada e acontecida , palavra após palavra, para que novos portões possam se abrir .

